Vídeo feito pelo coletivo A Margem do Infinito, em projeto contemplado pelo VAI da Prefeitura de São Paulo, com roteiro sendo adaptação do texto “Cadê ti?”

 

Este não é meu caminho. Não é aquele cujo traçado aprendi a seguir ao longo dos anos. Estações a fio de prática foram necessárias, primeiro de mãos dadas, mas logo no momento seguinte em orgulhosos passos solitários. Não é meu caminho, aquele que a intimidade já permite chamar de meu. E sigo-o porque realmente é meu, é o meu traçado, ou o traçado destinado a mim, isso nunca importou. Este não é aquele em que aprendi a permanecer mesmo diante da mais alta bruma, nos quais sempre pude manter o passo mesmo pensando em outra coisa ou até mesmo sem pensar. Agora preciso pensar, não estou mais no caminho em que sempre fui e voltei passo sobre passo. Não é mais o caminho ao qual me afeiçoei a ponto de não me sentir capaz de dizer “Eu” sem evocá-lo. Neste momento tenho muito medo, pois saí dele e para ele não sei voltar, tampouco conheço outra rota alternativa. Nem sei em que momento me perdi. Não quero ver aonde isto vai sair! Ninguém atende ao meu grito, talvez porque não ouçam, talvez simplesmente porque não entendam. Eu também não os entendo. Onde foi parar o caminho que nasce de minha morada primeira, antes mesmo de eu nela habitar? Não se trata de um princípio, antes é um precipício pelo qual as possibilidades se esvaem momento a momento. Minha voz vai se calando conforme a queda se aprofunda. Por onde se vão minhas possibilidades?

Obscuros somos sempre, mesmo sem pedi-lo.

Grande vitória que ninguém nos poderá arrebatar.

Herberto Helder

 

Habitava um quarto com menos de 6 m². Duas das quatro paredes, cuja cor variava de acordo com a altura, não eram de alvenaria, mas de eucatex. Era ora abafado ora arejado, dependendo da época. Tudo comprovava que aquele não era o projeto original, mas sim uma adaptação grosseira feita sem maiores preocupações quanto ao conforto ou estética. Era mínimo, ridículo, suficiente. Coisas que o exercício da profissão de fel proporciona.

Morava sozinho, claro. Seria impossível conceber mais alguém no quarto porque não havia espaço físico para tanto, ou mesmo porque ninguém se interessaria em adentrar aquela particularidade. De fato, não caberia mais ninguém no contexto. Habitava-o uma imagem que uma imaginação imaginava.

Refletia modos austeros. Não havia cama, pois deitava diretamente no chão. Tinha que ser assim, senão não aguentaria. Não havia guarda roupas, pois a roupa toda era a que cabia no corpo. Não havia cômodas, pois os acessórios eram dispensáveis pela nudez. Em suma, não necessitava móvel nenhum. Não havia janela, somente dois espelhos posicionados um em frente ao outro, capazes de proporcionar em alguma medida a dimensão do infinito. Mesmo assim seu espaço propiciava uma ampla vista, revelando-me uma vasta paisagem.

Não possuía nada além de mim, e quando não estava lá era impossível vislumbrar qualquer objeto tamanha a obscuridade instaurada. Habitava as entrelinhas de um fragmento, cavando um espaço entre palavras e me insinuando no inaudito.

A porta só tinha maçaneta para o lado de dentro. Quando aberta por fora, logo se escancarava ao giro da chave, e mesmo por dentro só se fechava novamente se fosse devidamente trancada, nunca encostada. Não admitia brechas. A porta batia com um ar de interrogação próprio a quem principia seu discurso com uma pergunta retórica, indicativo equivalente a uma introdução.

O chão era limpo pois os sapatos ficavam sempre na porta. Aliás, não me preocupava com limpeza, pois buscava antes não levar sujeira para dentro. Ao cruzar o limiar da porta sentia como quem acabava de ser ultrapassado por um portal. Entrava e ajeitava. Dessa posição apreciava povoadas solidões, imergia em atribuladas meditações e sonhava que estava exatamente onde estava.

Era nesse lugar que alcançava total liberdade. Mas para desfrutar da plenitude de tal libertação tinha que necessariamente permanecer ali. Isso não era lá problema, pois a liberdade transcende facilmente qualquer refúgio imposto, apesar de nem sempre dar conta de paradoxos irreconciliáveis; isto é, liberdade.

O quarto não era um fim em si mesmo. Não se fechava para que o pensamento se fechasse com ele, mas instrumentalizava para uma reflexão independente. Era um convite expansivo para o que está fora da casa. O que se inscrevia nesta expansão tornava-se mesmo constituinte do quarto. Suas paredes translúcidas se abriam para muito além de seu espaço, abarcando o imponderável. À margem, dava margem todo o tempo para que não houvesse preocupação quanto ao tempo. Anacronicamente, o chão se aprofundava e era possível flutuar, mas o desvelamento logo revelava que não havia fundo.

Diante da mudez, quer dizer, queria dizer, percebi que falava sozinho.

não esquecer que preciso tratar da imaginação citando a primeira melhor ideia

acentuar a desimportância do assento e não perder o fio do que está sendo narrado

Só os que entram sabem o que é isso. Digo que entrava para conhecer o momento de entrar. Esta experiência, de vivenciar o quarto, era minha.

Só após sentir, sonhar ou pensar que vinha a necessidade de dizer amor, solidão, nostalgia, que podia ser qualquer coisa, é tudo uma questão de nome. Este quarto pode ser tomado literalmente e sua ambiguidade exaurida, porém ele não foi feito para dormir, razão de ser dos quartos em geral. Este quarto, em verdade, não tem utilidade como outros dormitórios costumam ter. Ele é autônomo, não serve a nada.

Muitos podem pensar que este quarto com sua estrutura em abismo nunca existiu, mas esta leitura os desmente: é deste quarto autêntico que escrevo este texto mais propício à releitura ao relento. E se você o está lendo agora é porque o quarto de fato se construiu e se expandiu para além dos 6 m². E se você não o estiver lendo agora então isto tudo é um sonho.

Cheguei a cogitar que este quarto fosse único até descobrir que no próprio prédio de incontáveis andares em que habitava havia inúmeros quartos semelhantes. Descobri que há até um na cobertura, mas lá nunca fui pois só é possível alcançá-la utilizando um elevador privativo cujo acesso é controlado.

A espera se prolongou como o tempo árido que anseia pela chuva. Ofélia estava ansiosa pela visita. Havia tempo que planejava essa mudança que, uma vez feita, não considerava passível de regresso. Seria enfim tempo de experimentar a emancipação da qual todos falavam e se gabavam ao estabelecer aí a inequívoca entrada à vida adulta autônoma.

Quando chegou o corretor – pontual, pois era ela quem estava adiantada –, Ofélia o reconheceu de longe pelo caminhar justo que embutia em si a cordialidade de quem busca agradar e a segurança de quem quer passar confiança. Ambos, claro, próprios aos ofícios, tudo para garantir o negócio. Cumprimentou-o com um austero aperto de mão e nesse momento se deu conta do estado em que se encontrava: a mão molhada revelava que suava frio. Manifestação física nada compreensível no clima ameno que fazia, senão vista por sua atribulada vida interior.

O homem trocou em particular algumas palavras com o porteiro antes de se encaminharem pelo hall, cujo espelho revelou uma Ofélia que Ofélia achou bizarra. Se precisasse apontar o que estranhou em si não saberia precisar.

Assim que tomaram o elevador o mal-estar se instaurou nela com mais potência que de costume. O homem, que aos olhos de Ofélia tinha a obrigação de deixá-la à vontade, limitou-se a analisar o botão dos andares. Durante a infindável viagem teve esperanças que melhoraria logo que saíssem do elevador. De fato, a ansiedade abrandou, e ao sair se viu capaz de afirmar as pernas e controlar os passos.

Não demorou para que o homem se pusesse a falar pelo corredor afora, explicando que eram seis apartamentos de mesmas proporções em cada andar, com exceção do dela que, por ser de frente, tinha uma sacada a mais que os outros. Ofélia pensou que, entre os seis, seu apartamento tinha que ser justamente o desproporcional.

Logo ao ouvir a chave retirada do bolso e penetrando a fechadura, não pôde evitar grande perturbação pelo som metálico que ecoou profundamente pelas escadas, como se fosse o único sinal de vida em toda aquela verticalidade, contrastando com o homem que utilizava uma voz macia que já tratava das vantagens de se morar daquele bairro.

Quando a porta se abriu e o corretor cavalheirescamente cedeu passagem a Ofélia, calou-se o mundo às suas costas e tudo que surgiu à sua frente foi uma ampla janela tremendamente iluminada, desnudando o vazio do apartamento. Vacilou antes de entrar mas, dando-se conta de que o homem não quebraria o silêncio e, consequentemente, não adentraria o imóvel antes dela, tomou por bem cumprir a expectativa. A já referenciada janela era inevitavelmente o ponto que concentrava a atenção, por isso focou nela seus esforços para extrair algum comentário. Por fim, falou sobre sua vastidão, ao que o homem, satisfeito, aludiu à vista que proporcionava, referindo-se como um trunfo que a todos causava impressão positiva.

No silêncio restabelecido, Ofélia não pôde deixar de pensar nas tardes em que, desassossegada por incontornáveis pensamentos que lhe eram próprios e de todos, de sua poltrona observaria com vagar a vaga intempérie a projetar pingos de água que escorreriam uns sobre os outros pelo vidro. Visivelmente constrangido com o silêncio, o homem disparou a falar sobre as possibilidades de disposição dos móveis, ao que ela apenas assentiu maquinalmente. Sentindo que era hora, o corretor a convidou a conhecer outro cômodo.

No espaço da cozinha o que dava a tônica não era o vazio, pois já havia um armário embutido, bem como a pia com o recorte adequado para um fogão. Enquanto o homem elencava as possibilidades oferecidas, como que a tentar desviar o foco para a menor incidência de luz, Ofélia pensava melancolicamente sobre a louça que haveria de lavar e os chás que provaria ali, tentando insistentemente associar os sabores experimentados a outras sensações, sinestesia perseguida e nunca alcançada.

Era isso que ocorria a Ofélia quando passaram à área de serviço, e a visão possibilitada dos outros apartamentos logo atraiu sua atenção. Viu roupas que secavam ao vento, de toda sorte de gosto, e pelas vestimentas tentou imaginar que tipo de pessoas moravam ali. Depois dessa especulação, pelas roupas que trajava, tentou inferir que tipo de pessoa ela própria era. Não avançou em nenhuma das tentativas, mas entreteve-se a ponto de não dar qualquer atenção ao diligente profissional que, na medida em que era ignorado, cada vez mais se excitava e gesticulava exacerbadamente. Ofélia por fim mal articulou uma resposta, restringindo-se a menear a cabeça, o que não bastou para o profissionalismo do experiente corretor identificar se estava utilizando a abordagem adequada e se seu discurso soava estéril ou não.

Voltaram, cruzando novamente a cozinha e a sala, antes de avançarem pelo corredor e alcançarem o banheiro. Chegaram mas não puderam entrar, pois o modesto espaço, diferentemente da abundância dos outros ambientes, não suportava os dois confortavelmente. Ofélia sentiu vivo receio de ter que lá entrar, pois era ao lado da cozinha e a iluminação ainda menos favorecida, mas vendo que era justamente o que o corretor esperava, preferiu não frustrá-lo e o fez mais para que as coisas se encaminhassem rapidamente que por interesse em conhecer. Ao cruzar o limiar da porta Ofélia foi outra vez tomada pelo mal estar, e não foi capaz de dissimular seu abatimento tendo o homem tão próximo de si. Este, vendo a cliente esmorecer, perguntou-lhe temeroso o que se passava, o que ela estava sentindo. Ela se concentrou o suficiente para dizer que não sentia nada, que aquilo era normal, que só precisava de um copo d’água para se reequilibrar. Imediatamente ele foi até o vizinho de porta pedir um copo, e tão logo ela se viu sozinha sentou-se no vaso – não para fazer necessidades, mas por ter a necessidade de se sentar naquele instante.

O homem demorou e, perante sua ausência, imaginou os banhos que deveria tomar ali. Ao imaginar a água escorrendo por seu cabelo encharcado, sentiu vontade de se aliviar. Encostou a porta silenciosamente, tanto rápida quanto sorrateira subiu a saia, abaixou a calcinha e tirou o absorvente tingido de rubro. Pensou identificar um cheiro forte se espalhando pelo ambiente. Algumas poucas gotinhas de sangue escorreram então. Feito isso, reposicionou o acessório alvirrubro no devido lugar e se ajeitou. Instantaneamente pensou estar melhor. Quis na mesma velocidade dos sucessos dar descarga e se livrar de seu ato, mas qual não foi sua surpresa ao acionar o mecanismo e não receber qualquer resposta. Por certo a água do apartamento estava desligada ou cortada. Olhou para baixo e viu o vermelho tão vivo e denso reunido a se diluir no líquido.

Ao mesmo tempo ouviu passos que, após uma aproximação, rumara à cozinha, e buscou se acalmar pois já sabia o que se passaria. Logo na sequência o homem entrou e, sem graça, avisou que pegara o copo vazio da vizinha, planejando servir a Ofélia a água de seu próprio apartamento para que ela provasse o que seria seu, mas que infelizmente não havia água. Fez essa exposição apressadamente, pois tencionava voltar à vizinha para pedir também a água, no entanto Ofélia o deteve dizendo que já estava recuperada e que aquilo só era consequência de ter se levantado muito cedo. Ademais, só faltava um cômodo mesmo para ver, então poderiam dar a visita por encerrada. Vendo a mulher falando desse modo, fluido como ainda não ouvira de sua boca, o corretor se tranquilizou. Por educação, insistiu sem vontade em encher o copo, pois não tinha pressa, tampouco preocupação. Ofélia dispensou o cuidado se reerguendo e dizendo que estava pronta para o quarto.

Apesar do que tentava aparentar, Ofélia estava exausta em seu desejo. Saiu do banheiro e pegou a esquerda para conhecer o quarto, e antes mesmo de avistá-lo já se deu conta de que interiormente não estava nada pronta. Ao caminhar por seu espaço generoso, com um imponente roupeiro embutido e boa iluminação, pois a janela dava para o mesmo lado da que ficava na sala e tinha a luz batendo de frente naquele horário, concebeu um híbrido entre a iluminação da sala e o preenchimento da cozinha. E imaginou com mais detalhes que antes o que se passaria, seu corpo molhado suando por um amor feito sem querer, flutuando inutilmente de um lado para o outro como as roupas na área de serviço, impossibilitadas de voar presas ao varal como estavam, destinadas apenas a secar com a brisa da tarde, assim como suas longas insônias igualmente secariam suas lágrimas noite adentro.

Disse sem pensar qualquer coisa para o homem, cujos olhos recendiam a esperança, o que significava que ambos haviam executado muito bem os seus respectivos papéis. O corretor ainda principiou a tratar da liquidez do investimento, da ótima relação custo-benefício proporcionado pelo aluguel do imóvel, porém tão logo sentiu uma brecha ela afirmou estar decidida, garantindo que voltaria a entrar em contato com ele. Ofélia acelerou então pelo corredor, espaço de passagem por excelência, perfeito para aquela fuga, e ao saírem o barulho da chave encontrando outra vez a fechadura, dessa vez para encerrar uma possibilidade e a oferecer o exterior, animou-a para seguir.

Subitamente, o homem bateu na porta da vizinha a fim de devolver o copo, explicando que era ensejo propício para já travar conhecimento e alimentar boas relações. Ofélia pensou em chamar o elevador, mas vendo que não haveria tempo hábil, precipitou-se pela escada mesmo. Até ali, mantivera a postura interessada e forjara magistralmente sua imagem ao corretor, mas não podia mais sustentar o fingimento. Sabia que seu movimento era definitivo, e decidiu que não precisaria mais de nenhum corretor. Àquela altura já estava liquidada, e não queria mais nada senão voltar ao seio materno.

Acordei me sentindo mais estranho que o normal. Estava mais tenso do que quando não era nem criança nem adulto e mais vazio do que quando não criava. Será talvez por que ultimamente não escrevi nada, somente reescrevi?

O que planejamos para somente uma noite deu errado e o pacto de sangue ou de alma ou de esperma que fizemos tomou outras proporções. Eu estava doente, ela condolente. Você me incomodou, mas sua ausência incomodou igualmente. Acordei mais uma vez desejando ser vítima do inevitável eterno retorno.

Fui te procurar na Saúde e na doença e no Piqueri e no Mandaqui e no Campo Belo e no centro velho e no Campo Limpo e nos Jardins da selva de pedra – epíteto desnecessário pois já está claro o local ao qual me refiro – e na Liberdade e no Carandiru e no Paraíso e no metrô em horário de pico e na Consolação e na Zona Leste e nas da Augusta e nas imediações do Jóquei e na Catedral da Sé e na puta que te pariu e na casa do caralho e na Casa das Rosas. Definitivamente, a estética da letra minúscula não é para mim.

Essa perturbação se torna obsessão rapidamente. Todos os perturbados estão e estiveram em busca. Os que tentaram solitariamente em geral foram esquecidos, talvez porque alcançaram seu objetivo e não necessitem de lembrança. Em outra época foi possível chegar lá, mas a verdade é que faltavam guias, portanto só restava a solidão para forjar o caminho. Hoje, os guias se encontram aos montes, mas o local já se tornou inalcançável, e os que insistem acabam inevitavelmente sendo tomados por loucos.

A memória implacável ataca os humores, renovando os equívocos de um instante contínuo. É assim: enquanto estamos diante das coisas não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos apenas o que fizemos, muitas vezes sem a dimensão do potencial de alcance desses atos. Ver as coisas, possuí-las e ser apanhado por elas.

O que vem aí? Algo que se vai… Não gosto de expectativas. Tento não alimentá-las em mim. Em meu trabalho, não viso quebrar as expectativas, mas deixá-las em suspenso. Não há síntese e, se houver, é irônica, provocativa. Há devir. Se eu fizesse um filme pornô ele antes faria brochar. Seria ainda um pornô? Não sei. Se não, seria ainda filme. Ou nem isso também, não sei.

Todos vivemos nossas tragédias kafkianas particulares. Há que se recomeçar reconhecendo isso. Se penso em um peixe posso visualizá-lo: ele é vermelho, pequeno e célere, apesar de um pouco rechonchudo. Sou capaz de descrever melhor o peixe o imaginando que se o estivesse de fato vendo. Ao mesmo tempo em que concebo sua imagem, sei também o quão o alcance de sua memória é limitado.

Meus infortúnios se devem especialmente ao fato de eu não ser peixe. Sequer sei nadar, mas tenho memória. Não invento, só não esqueço. Projetei algo para a vida e, uma vez impossível de estendê-lo vida afora, esse algo permeia minha existência em lembrança e sonho, o que no final dá no mesmo.

E sem o instante de inspiração, sobra um tanto de piração. Por vezes encontro alguém que não vejo há tempos e esse alguém logo me pergunta “e então, continua escrevendo?”, o que comprova três coisas: que essa pessoa me reconhece como escritor – o que deveria ser a parte boa –, que ela não me acompanha – o que é indiferente – e que ela está convicta de que ora ou outra eu assumirei o fracasso e desistirei disto. Mas ainda persisto. Afinal, o que mais eu poderia estar fazendo? Se depender do gerundismo da frase anterior, poderia estar trabalhando com telemarketing, o que não é muito melhor do que fazer o que faço.

Eu, na verdade, queria trabalhar para nada, na verdade, queria ser mudo, na verdade, queria órgãos artificiais, na verdade, queria um acerto justo, na verdade, queria uma vida sem arrebatamentos, na verdade, queria não ter passado, na verdade, queria ser monóxido de carbono, na verdade, não sei o que queria, na verdade. Eu, na verdade, minto descaradamente.

Não posso simplesmente disfarçar, colocando a mão nos bolsos, assoviando para o alto e transparecendo desinteresse, pois não sei assoviar. Na verdade, nunca soube. Sempre que tento sai um sopro quase mudo, impotente, que não vai longe e não lembra em nada as harmônicas melodias que nos põem alegres ou melancólicos ao primeiro reconhecimento. De fato, constato minha inaptidão para essa rica possibilidade musical de ordenar o caos de seguidos agoras. Até o vento assovia, mas o meu não se propaga, talvez pelo vácuo em que vivo. Meu assovio mais se assemelhar a um chiado intermitente que visa prevenir sobre algo que não está bem. Não invejo os que são dotados dessa incrível capacidade, antes silencio para apreciar melhor a incrível capacidade de levar sensações pelos quatro ventos. Mas caso alguém se disponha a observar quase ao acaso minha expressão poderá reconhecer a tentativa e supor de meu ato um assovio. E confesso que esse reconhecimento seria mais bonito que o reconhecimento da beleza do próprio assovio em si.

Quanto à busca, se encontrei o que procurava? Nem me lembro, na verdade, o que posso dizer é que a vontade passou e fui dormir.

- Digam a primeira citação que lhes vêm à mente.

- “Conhece-te a ti mesmo”

- “Eu é um outro”

 

- Com que frequência os senhores escrevem?

- Sou sistemático, escrevo todas as noites.

- Sou desregrado. Estou o tempo todo pensando em escrever, mas mais penso que escrevo.

 

- Qual a principal matéria da escrita de vocês?

- Escrevo sobre o Homem – responde um escritor.

- Escrevo sobre um homem, o Outro – responde o escritor.

Sentado na cadeira onde tantos que já haviam encontrado sua má sorte se sentaram, refletia sobre as coisas do final da vida. Atrás de si o mastro onde se fixava o garrote impunha-se colossal; defronte, todas as percepções que só podem provir de alguém que se alguma vez se torna cativo nessa cadeira.

Solitário como o goleiro durante o momento da penalidade máxima, chorou por não haver ninguém para partilhar a singular sensação que lhe trespassava. Logo depois se recompôs ao se dar conta de que, mesmo se houvesse alguém para ouvi-lo ou encará-lo nos olhos bem no momento em que a essência toma a vista, não seria capaz de conjugar tamanha experiência.

Supondo que naquele instante todos dedicassem total atenção a ele, não haveria sequer um que veria o que seus olhos viam. Isso quer dizer que, apesar de ser ele a ser tomado por tudo, aqueles sentimentos poderiam pertencer a qualquer um que ocupasse seu lugar. Sabia que não era especial, que ocupava somente mais uma posição como tantas outras que necessitavam de ser ocupadas, e, ocasionalmente, fora destinado a ele o desígnio de ocupá-la.

Tinha consciência de que vivia uma extensão de acontecimentos intrínsecos à vida de todos e que ele era um produto disso. Não se via como vítima, mas ainda assim não podia passar incólume, fechar-se em si mesmo e apenas isso, por mais que tudo fosse consequência de ações decorridas e decoradas. Sua experiência faz com que qualquer invólucro seja rompido, apesar do impassível e cansado rosto não transparecer. Este, outrora tão jovem e sereno, foi tornado duro pela prática. Talvez o condenado à pena perpétua não seja aquele que morre, mas o que condena, refém da rigidez autoimposta, e que deve carregar consigo o acúmulo de várias mortes antes da sua própria.

Decepcionado com a conclusão de sua autorreflexão, só encontrou algum alívio quando pensou na crueldade que o Homem é capaz de impor ao seu semelhante e quantas formas de aplicação de uma pena de morte, que por si só já é uma determinação suficientemente cruel, esta já fora capaz de conceber. Pensar em fogueira, crucificação ou apedrejamento, maneiras horríveis de se punir, já não impressiona tanto pelo costume que ouvir sobre elas nos trouxe. Mas pensar em outros modos, desumanos ao ponto de ser difícil supor como foram imaginados, ainda é capaz de causar uma atávica angústia.

Buscando na memória os métodos que já ouvira falar ao longo da vida, pôde se lembrar de alguns terríveis. Dentre estes, o empalamento – introdução de uma estaca do ânus à boca– ou o esfolamento – remoção da pele – não chegam a espantar tanto. O desmembramento – após amarrar os braços e pernas em quatro cavalos, os membros eram extraídos quando estes animais arrancavam em sentidos cruzados e opostos – e a roda – igualmente amarrado, eram quebrados cuidadosamente os ossos de braços e pernas, a fim de não causar fratura exposta ou derramar sangue, para em seguida os membros, literalmente enrolados nas extremidades da roda, causarem enorme agonia – já conseguem abalar. Mas nada capaz de chocar como o esventramento – abrir o ventre do condenado e, tendo o cuidado de mantendo-o vivo, extrair seus órgãos internos – e a serração – após pendurar de cabeça para baixo, o condenado era serrado ao meio, a partir do ânus; a posição facilitava a oxigenação do cérebro e retinha a perda de sangue, o que aumentava ao máximo o tempo de martírio do Homem.

Essa questão do prolongamento do sofrimento também é importante. Todos quando pensam na morte, se ousam pensar, imaginam uma morte rápida e, se possível, indolor. Afinal como não temer um suplício que pode se estender por horas ou mesmo dia? O suplício ao qual se submete o verdugo é justamente dessa ordem, estendendo-se por uma vida.

Era unicamente a lembrança desses métodos que o aliviava em certa medida. Poderia ser muito pior, afinal. Sempre pode ser. Dependendo do ponto de vista, é possível considerar o garrote quase como uma gentileza, apesar de levar um tempo até causar a morte. Era assim que costumava pensar, seguindo daí em diante como o náufrago exausto que se entrega à ventura do mar e, em algum momento, é levado ao litoral pela maré, apesar de nem sempre chegar a tempo de manter a vida.

Cumprira as expectativas: o trabalho estava feito. Todos que vieram para presenciar o espetáculo já haviam partido satisfeitos. Quando recobrou as forças de mais esse trabalho se levantou, pronto para regular a altura do colar e apertar o parafuso para o próximo que ali se sentasse.

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