Vídeo feito pelo coletivo A Margem do Infinito, em projeto contemplado pelo VAI da Prefeitura de São Paulo, com roteiro sendo adaptação do texto “Cadê ti?”

 

Este não é meu caminho. Não é aquele cujo traçado aprendi a seguir ao longo dos anos. Estações a fio de prática foram necessárias, primeiro de mãos dadas, mas logo no momento seguinte em orgulhosos passos solitários. Não é meu caminho, aquele que a intimidade já permite chamar de meu. E sigo-o porque realmente é meu, é o meu traçado, ou o traçado destinado a mim, isso nunca importou. Este não é aquele em que aprendi a permanecer mesmo diante da mais alta bruma, nos quais sempre pude manter o passo mesmo pensando em outra coisa ou até mesmo sem pensar. Agora preciso pensar, não estou mais no caminho em que sempre fui e voltei passo sobre passo. Não é mais o caminho ao qual me afeiçoei a ponto de não me sentir capaz de dizer “Eu” sem evocá-lo. Neste momento tenho muito medo, pois saí dele e para ele não sei voltar, tampouco conheço outra rota alternativa. Nem sei em que momento me perdi. Não quero ver aonde isto vai sair! Ninguém atende ao meu grito, talvez porque não ouçam, talvez simplesmente porque não entendam. Eu também não os entendo. Onde foi parar o caminho que nasce de minha morada primeira, antes mesmo de eu nela habitar? Não se trata de um princípio, antes é um precipício pelo qual as possibilidades se esvaem momento a momento. Minha voz vai se calando conforme a queda se aprofunda. Por onde se vão minhas possibilidades?

Preciso reencontrar minha potência, voltar a fazer as coisas com a excitação de sempre. Esse tempo, por mais terrível que tenha sido, não pode ter me tornado broxa para sempre. Ler, por exemplo, foi algo que sempre me animou, e agora faz semanas que não leio nada. Quando fiz o que fiz sempre houve uma dimensão de prazer. É isso o que me falta por ora.

Num primeiro momento confundi essa resolução e fui no mais fácil: tentei preencher meu vazio existencial apelando para a carne. Atirei indiscriminadamente para todo lado, me rebaixei. Queria ter mulheres como cartas na manga, garantir companhias fáceis. Obtive algum êxito, mas recuei: apesar de meu primeiro ímpeto, decidi não banalizar o sexo. Em tempo agi com mais lucidez, até para não me tornar o que me causa repulsa. Decidi não fazer nada disso, afinal se me separei foi para ficar sozinho, não para sair por aí copulando loucamente. Mal pude esperar, agora pretendo esperar melhor. Com 20 anos eu aproveitava toda e qualquer chance que aparecia, não desperdiçava uma, mas desde lá espero ter amadurecido. Tampouco queria iludir ninguém, alimentar expectativas apenas para um sucesso fácil. Já enganei e me enganei demais, agora não mais. É assim que me sinto bem, cada um se vira com a consciência como pode. Quem sabe algum dia definitivamente não precise mais disso? Seria tão bom…

Considerei que entrei na vida adulta ao sair de casa. Agora, morando sozinho, percebo que é outra vida. A convivência que tanta falta fez foi a que acabou com tudo. Uma falta de difícil solução são as massagens nas costas, que agora estão bastante judiadas. Outra são os cafunés. Busco superar o hábito que a incomum vida em comum me trouxe para que não haja distração e assim o foco incida no que importa. Eu, que sempre me inspirei tanto na displicência francesa, essa de nem se dar ao trabalho de pronunciar a consoante final, afinal tudo fica subentendido mesmo, agora prezo pelo pragmatismo alemão. Busco passar o dia. Meus planos são mínimos e consistem em traçar de antemão atividades para preenchê-lo. Ao final, passado o dia, deito e durmo satisfeito. Fico sozinho e penso que estou sozinho, então se há algum problema não é com outro ou com a ausência de outro, mas unicamente comigo. Os que me verem me verão sozinho por um bom tempo, por um tempo bom.

Apesar disso, tenho me reaproximado de amigos. Amigos se distanciam, mas continuam amigos. Aliás, essa é uma das essências da amizade. E ainda bem que é assim, pois muitos dos meus eu não via fazia tempo, já que a maior parte deles não a agradava, de modo que acabei me afastando para evitar problemas. Na verdade, percebo que mais criei problemas que qualquer outra coisa. Conservo bem as amizades, todas já estão comigo há alguns anos. E é ótimo retomar os contatos e ver que ainda estão lá e bem dispostos. Não sei como me furtei tanto tempo dessas figuras. O outro me expande. Como pude estreitar por tanto tempo meu mundo? Conheço pessoas com a capacidade de proporcionar um bem-estar apenas com a presença, não sendo preciso nada além do silêncio. Quanto a mim, sempre tento preservar a graça, tornar as coisas mais leves. Assim, é sempre mais fácil quando consigo rir de mim mesmo. E meu sorriso fácil já está devidamente restabelecido.

Quando minha tia afirmou convicta que minha vó tem preferência entre os filhos, ela perguntou “você anda no meu coração?” “Ainda bem que ninguém anda no meu”, logo pensei. Apesar de compartilhar tudo, a dor foi algo que nunca quis compartilhar. É desnecessário, não há compreensão pois é impossível compreender a dor do outro, já que nem aquele que a sente é capaz de compreendê-la. Me disseram sobre o poder curativo de Bach. Desde então passei a ouvir muito Bach, e no meu caso estenderia esse poder músico-terapêutico também a Chopin.

Não odiar advém do esquecimento, e esquecer demanda tempo. Me faz bem vomitar este ódio. Isto já me trouxe problemas, mas literatura é para perturbar mesmo. Nada melhor para a vida que um amor correspondido. Nada melhor para a arte que um amor nunca correspondido. Não sei, parece que tudo que sinto está em algum trecho de algum texto que já escrevi. Talvez não haja mais nada para escrever, talvez não haja mais nada para sentir. Posso repetir seu nome até esvaziá-lo de sentido. Encaro tudo como um processo de expiação, tenho essa necessidade de ser herói de mim.

Um amor de árvore não pode ser. Amor autossustentável. Amor de um lado só, como um mal que se instaura pela raiz. A árvore necessita tanto do que vem do solo quanto do que vem do céu. As flores feneceram, seguirei cuidando do jardim. Aliás, comecei aprendendo a cuidar da plantinha aqui de casa e ela ficou bem. Está melhor do que nunca, na verdade. Descobri enfim a medida certa de água e a frequência para molhá-la: de dois a três dias, dependendo da temperatura. Ela cresceu bastante em um ano e meio, e me parece que agora expandiu suas folhinhas para todo lado.

Na lucidez estou bem, quando consigo viver o momento, mas conforme vou pensando a lembrança me cega e o sofrimento vai voltando. Não posso ser bom, faria mal para mim. Me parece razoável assim. Acho que tenho razão. Ela que não pode ter razão, agiu feito animal. Essa minha necessidade de coerência nas coisas. Fala-se na velha confiança, que quando se perde está perdida e assim ficará. Todos disseram que não há como voltar, que não dará certo, que nunca será o mesmo, que quem faz uma vez faz outras, vira hábito. Eu sei. Nada nunca é o mesmo. Eu não confio. Isto é ridículo. Eu e minha mãe já discutimos muito novamente, é inevitável. Numa discussão sobre se a presença de um filho é capaz de sustentar casamento ou não, minha mãe me revelou que logo aos 2 anos meu pai não quis saber de nada e nos abandonou, mesmo à época eu sendo muito apegado a ele. Apesar de consistir numa experiência pessoal, considerei um argumento irrefutável e me calei. Em seguida pensei que minha vida talvez consista de fato numa sucessão de abandonos, o que explica muita coisa. Se for assim, ainda há muito por vir, o que não é exatamente animador. A espera de um fracasso. Não há esperança, apesar de outra vida, outras pessoas. Eu garanto que sou outro, aquele repartiu. Além de tudo somos previsíveis. Nós voltamos.

Post-scriptum

Ela pediu para voltar. Disse que estava mal, disse que precisava. Pediu desculpas sem engolir o orgulho. Eu aceitei. Assumo os pecados. Fiquei com os dois pés atrás, tanto que nem avisei aos amigos. A família soube e ficou inconformada comigo. Eu sabia que ela podia ir embora a qualquer momento. Dizem “quem diria”. É, agora dizem. Uma amiga a encontrou com um “rapaz mais velho” e achou aquilo estranho, pois menos de uma semana antes havia nos encontrado juntos naquele mesmo SESC consolação. Fiz questão que dormíssemos de valete. Me virei na cama pois não podia dormir normalmente com alguém que fez o que ela fez. Aliás, sempre que ela lembrava não podia dissimular um sorriso de canto ou mesmo escárnio escancarado. Ela mesma deixava escapar por várias vezes que o tempo todo planejava ir embora. A isso se somava o fato de não querer juntar o dinheiro que ela levou ao partir numa única conta, como sempre fizemos, e nem sequer se dar ao trabalho de desfazer as malas que trouxera. Ela não voltou por inteiro, chegava a ficar 4, 5 horas seguidas no celular. Apesar de tudo, fiquei preocupado com aquela circunstância e a alertei. No terceiro dia após a volta, uma quarta, acordei perturbado por pesadelos e levantei já pedindo para ver seu celular. Ela hesitou para desbloqueá-lo e me passar. Fui direto à galeria de imagens. O que me incomodou não foi ver o celular cheio de fotos de outro e nenhuma minha, nem os vídeos dele tocando – mesmo ela sabendo que eu toco e ao longo dos anos nunca pedir para eu sequer pegar no violão –, o que me incomodou foi ela voltar para casa com o celular repleto de fotos e vídeos de transas com outro homem. Havia acordado, mas parecia que não. Imediatamente meu estômago embrulhou. Precisei tomar uma ducha fria. Precisava sair. Ainda perguntei porque ela fez isso com nós antes de ir. Fiquei fora por cerca de 4 horas. Saí 11h30 para voltar 15h30. Quando voltei encontrei a casa vazia. Em menos de 4 horas ela havia esvaziado a casa. O incenso que ela deixara aceso ainda não havia chegado à metade. Ela levou desde a máquina de lavar e o micro-ondas, passando pelos folders de teatro que juntei ao longo dos anos, os livros com anotações minhas e até o artesanal presente que ganhei do Poeta de aniversário, até a sandália que me presenteara e os cobertores. Era inverno. Até minha planta ela levou. Não achei bom ter ficado sem nada na casa, mas minha vó me disse que rezou para que acontecesse o melhor, e se isso aconteceu é porque era o melhor e que eu conseguiria tudo ainda melhor. Isso me acalmou. Vazio. Por que a música do caminhão de gás que passa no butantan é tão triste e bonita?

Minha mãe me parece uma pessoa melhor agora. Ou então eu que passei a valorizar mais qualidades que ela sempre preservou, como lealdade, austeridade e autenticidade. Depois de ficar sozinha quando meu pai abandonou o casamento de, se não me engano, 27 anos, conseguiu se recuperar em seu tempo. E apesar de todos os defeitos que tinha e dos que ainda tem, nunca sequer considerou deixá-lo. Isso estava fora de questão. Achava que era algo para ser superado junto. Mas não foi algo recíproco. Que fazer? Aprender a apreciar a própria companhia. Sozinha soube se virar do seu jeito e usar a situação para se tornar uma pessoa melhor. A diferença é notável. Ela está ficando aqui comigo. Nossa relação é de amizade, e tenho apreciado sua companhia mesmo no silêncio, o que é algo raro. Há entre nós um sentimento mútuo, uma cumplicidade muda. Não é preciso dizer nada, apenas se estabelece uma enorme compreensão. Ela não me cobra nada, não me força a falar para compreender o que se passa.

Ela tem dormido comigo. Não porque está tão difícil a esse ponto, mas porque ela está ficando em casa para me ajudar e como não há espaço o jeito é dividir a cama. É uma sensação engraçada esta de ficar madrugada adentro escrevendo e sentir alguém às minhas costas. Me viro para contemplar, como sempre fiz, e encontro minha mãe. Ou então quando abandono o posto para ir ao banheiro ou comer e bato o olho em quem está na cama. O cabelo meio curto até pode me trair, mas o loiro brilhando sob a luz baixa não mente. É bem estranho, algo parece fora de lugar. Quando apago a luz e me deito um ímpeto me faz iniciar o movimento para dar um cheiro, como fiz em todas as noites ao longo de um ano e meio, mesmo quando brigados. Às vezes quando estou entre o sono e a vigília, sinto um corpo ao meu lado, e a força do hábito me faz em um primeiro momento sentir um alívio e ficar feliz. Mas logo na sequência vem a consciência. Meu corpo se encolhe e repele aquele toque. Sinto nojo. Fico decepcionado comigo mesmo. Quando algo assim se perde, é irrecuperável. Não se pode encontrar o que já não existe.

Mas agora estou sozinho novamente, minha mãe voltou para sua casa. Uma hora todo mundo volta, mesmo os que não têm casa. Preciso retomar o processo do bastar-se a si mesmo. E se antes isso já me parecia suficientemente difícil, agora me soa utópico. Mas não fadado ao fracasso. Digo isso porque me convenci de que há muito forjei uma realidade para viver fora do mundo e convivi com uma ideia que tive. E quando a ideia se desvaneceu, sobrou eu e o mundo. E eu não estava pronto para ele. Desenvolvi nesse tempo a necessidade de compartilhar coisas. Assim, é como se eu pensasse tudo à minha volta já projetando seu compartilhamento. Ainda divido as coisas com alguém, mas não há ninguém comigo. Quando eu descobria um lugar com uma bela vista, já logo imaginava mostrar aquilo antes mesmo até de olhar, para concebermos à primeira vista nossas impressões. Para mim isso era gozar integralmente de algo. Guardar para mim era não só insuficiente, mas inútil. E a quem interessa tudo isto senão a mim? Eu, que desde que não entendo por gente fui ao cinema sozinho durante as tardes, que passei horas no meu canto lá no fundo esperando por shows, que sempre preferi ouvir a falar… O que se passou? Tudo isto foi uma criação minha. Minha companhia por todo esse tempo foi uma projeção, e o esgotamento dessa companhia exauriu minhas ideias. Morri um pouco. E quando morri, morri pensando em você. O mundo de fato se desertificou, já que não havia outro foco. E na negação descobri o que de fato havia: eu.

Se há um problema e consigo escrevê-lo, o problema já passa à escrita. A felicidade é terrível para escrever, para isso é muito mais proveitosa a desilusão. Estou melhor. Já voltei a dormir e a comer, mas não como antes. Tenho feito as duas coisas menos. Talvez daqui para frente esse menos passe a ser o meu normal. Ainda assim continuará sendo menos. Minhas camisas dançam no meu tronco e meu cinto fecha num buraco antes nunca visto. É como se minhas roupas, depois de tanto tempo, não fossem mais minhas. Ter passado de 78 kg para 72 kg não me deixa mentir. Sinto gosto de comida outra vez e sonho com outras mulheres. Alguns sonhos ruins ainda persistem, e acho que é essa a pior parte. O melhor é beber para não sonhar. Fico por vezes animado como costumava ficar. O tom trágico que encarei as coisas inicialmente agora me é compreensivo: já que a vida em comum foi tão sem graça, que ao menos haja um final emocionante para tentar fazer a estória valer a pena. Acho que ficarei por um tempo variando entre a excitação pela conquista de algo aspirado há muito e o incômodo do rompimento do hábito. Depois volta a melancolia, com quem me arranjo desde sempre.

Me frustra muito ter valorizado alguém que não tem nenhum valor. É escroto se separar de alguém e passar direto a outro. O que eu considerava a maior conquista da minha vida é algo fácil e sem valor que qualquer um é capaz de obter. Portanto, não tenho qualquer mérito especial. E essa valorização indevida significou não valorizar quem de fato merecia. Isso me faz sentir um ridículo que, após dedicar a vida a algo, quando chega ao fim e já não resta muito tempo percebe que se sacrificou pelo sem importância. Fui de fato ridículo e fiz de minha vida uma bobagem. Me senti um privilegiado, mas por fim me vi apenas enganado. Sinto que poderia morrer me enganando. Uma vez cometido o erro o mais fácil é prolongá-lo. O melhor é viver cada dia, mas não deixa de ser triste a convicção de que não há recompensa.

Preciso continuar nesta casa. Mas agora quero perigo, não vou evitar o risco. Nada requer meu cuidado, não há mais do que cuidar. É preciso também viajar. Ao menos tenho dinheiro para isso. É possível que não tivesse caso topasse fazer uma conta conjunta como ela insistiu duas semanas antes de partir. Se eu tivesse topado, certamente tudo estaria ainda pior. O que preciso é me distanciar, encarar tudo como algo relativo a um outro, como o que se vê em filmes ou se ouve em estórias. Sou rancoroso, por ora me faz mais bem odiá-la que qualquer outra coisa. Me parece merecido. Estive tão imerso que saturou. Ao me afastar talvez reconheça que esta casa me agrada e que gosto desta vida que ninguém senão eu mesmo construiu.

De tudo, acho que só o que restou de palpável foi uma camada de esperma recobrindo seus dentes e uma parte dos pequenos lábios da sua vagina em minha língua. Mas isso é capaz de sair fácil com outros beijos ou com a prática com terceiros das atividades que nos deixaram essas prendas. Esquecer. Nesse quesito é evidente que ela está mais avançada, já que iniciou o projeto antes mesmo de eu pensar sobre ele. Quanto a mim, na hora que aperta quem segura são sempre os mesmos: Velvet, Gainsbourg, Dostoiévski, Baudelaire, Borges, Kafka, Lars Von Trier e tantas outras figuras que sempre estão cá.

As pessoas se decepcionam comigo, pois projetam suas expectativas em nós, no que elas viam como uma combinação ideal. E quando se dão conta de que dá errado, ficam frustradas. Eu encontro o tempo todo gente que ainda não sabe. Pedem para que eu mande beijo. No início até me dispus a explicar que não poderia mandar aqueles beijos, mas depois com os que tinha menos intimidade me contentei em apenas balançar a cabeça assertivamente. Por que tirar a esperança deles? Está tudo bem, ninguém nem notará mesmo. Todos estão ocupados, parecem saber bem como preencher o tempo. Por não ter essa sabedoria passei a frequentar missas. Isso porque descobri que gosto de ouvir o padre falar. Ouço seu discurso atentamente, até que ele conclui e deixa espaço para que os fieis preencham o silêncio com seus pedidos mudos. Eu sempre saio nesse instante pois não tenho nada para pedir.

Não consigo comer. Não consigo dormir. Tenho dois bons empregos que nem preciso sair de casa para realizar e que me proporcionam condições de sair e ir aonde quiser, mas já não tenho nenhuma vontade de sair. Tudo é vazio de sentido. Nem ler estou lendo, os livros há dias jogados na poltrona não mentem. Sempre gostei muito de dormir, reputei comer como umas das melhores atividades da vida e aproveitava a vida cultural paulistana. Agora até como e durmo, mas sem encontrar nenhum prazer. Para comer sequer tenho ânimo, e quase tudo que ingiro sai logo em seguida. Mastigo sem vontade e não me encorajo a engolir. Pode haver um prato extremamente apetitoso e cheiroso, mas só sua vista me enjoa. Tudo é uma náusea constante. Dormir é um caso à parte. É o melhor a fazer, mas quando deito e fecho os olhos tudo de concreto se desvanece e minha capacidade de pensar, que permanece perturbada, me espanta o sono. Está frio. São os dias mais frios do ano e meus pés não esquentam. Butantan é um bairro extremamente gelado. Abro os olhos e observo objetos, basta cobrir o rádio relógio, porque ver as horas gastas virando de um lado para outro me enervam mais. Os objetos estão ali passivos e eu aqui deitado. Alguma coisa não resolvida entre nós me hipnotiza. É assim que consigo me acalmar, vendo que o objeto está ali. Saber não basta, é preciso pousar os olhos para me certificar. Mas para dormir é preciso fechar os olhos. Tento de tudo, insisto. Abro os olhos novamente e os objetos ainda estão lá, firmes, imperturbáveis. Invejo tamanha austeridade e consciência de sua função. As horas regridem e meu movimento incansável de abertura e fechamento se prolonga. Fico exausto, mas nada atrai o sono. Meus pensamentos me traem. Pego o celular para anotar alguma coisa. Me parece um desperdício, a noite se esvai. Penso na escrita, fiel companheira. Sim, me parece que com ela as coisas ficam mais leves, ao menos mais suportáveis. Não, ela também me é infiel. E tudo se desfaz em minha cabeça. Todo esse esforço e quando enfim consigo dormir o que me vem são sonhos ruins. Acordo assustado desses sonhos e já não consigo retomar o sono. Já não durmo mais que 5 horas por noite.

Por tudo isso evito deitar. Para que ficar virando na cama e pensando em uma só coisa, vítima de uma mesma obsessão? Não sei o que fazer com o tempo, então simplesmente vejo filmes. Mas não quaisquer filmes, escolho os mais longos e assisto não com o prazer de antes, faço deliberadamente apenas para passar o tempo. Antes eu não parava e nem sentia o tempo passar. O dia era produtivo. Agora torço para que tudo acabe logo, já que já acabou mesmo. Só fico parado, sem fazer nada. Nem assim. É tudo inútil. Agora meu tempo se arrasta. As 3 horas de Barry Lyndon, por exemplo, duraram umas 6 horas para mim.

Sinto como se estivesse perdido uma extensão de mim, justamente a parte das necessidades vitais, permanecendo apenas a capacidade de pensar e realizar um trabalho de modo automático, ainda assim sem o mesmo rendimento. E sinceramente não conseguir parar de pensar está sendo uma grande desvantagem. Me reconhecia e me projetava no que partiu. Não concebia nós como indivisível, mas como algo que não precisava se dividir, já que eu fazia tudo para enriquecê-la ao mesmo tempo em que isso também me fortalecia. Nesse processo ensinei e aprendi muito. A parte que se foi se formou de tudo que eu tinha para oferecer. E funciona bem sem esta que, por sua vez, não encontra função sem a outra. Eu sou o projeto que não deu certo. Não aprendi a mentir, por exemplo, coisa que a outra parte aprimorou incrivelmente. Ofereci tudo que podia, inclusive tendo o cuidado de permitir a autonomia da outra parte. Viajamos, fomos longe e fizemos descobertas que ninguém nunca saberá. O que construímos extravasou a condensação do cômodo único em que vivemos e que se expandia para o mundo. Não conheci nem reconheci nada sozinho nesse tempo. Nem pensei que poderia. Foi nós em tempo integral por mais de 600 dias. Não estou exagerando. Mas de pouco vale tudo isso quando me dou conta de que não fui sequer capaz de transmitir uma convicção que sempre tive e que é talvez uma das únicas que permanece como essências para mim: o pior que se pode oferecer a alguém é ingratidão. Essa minha parte partiu incólume, tornando-se independente de mim para passar a ser dependente de outro. De todo modo, mais um fracasso acumulado para a vida.

Resta um vazio, um abismo sem fundo. Não sei o que fazer. Não tenho mais prazer em nada. Não sinto mais gosto algum. Tudo em que eu acreditava ruiu. Era bonito no plano do discurso e bastante erudito até, mas é falho e não funciona para mim. Portanto, tudo que eu disse já não se aplica. Nunca fui um escritor de fôlego, e agora que estou debilitado muito menos, o que é uma pena pois teria muito a dizer. O que escrevo agora é outra coisa. Até perdoei e me reconciliei com minha mãe, com quem estava brigado há mais de 10 anos. Foi a primeira pessoa de minha família a conhecer depois de um ano e meio a casa em que moro desde que me lancei ao mundo. Desde que entrei na vida adulta não falava com ela. E agora preciso porque preciso de ajuda. Em suma, volto a ser criança. Mas naqueles tempos havia esperança e inocência, não apenas frustração e ausência de perspectiva.

Estou tonto, a falta de alimentação adequada me faz isso. Sinto como se estivesse à margem de tudo. Nos momentos de maior lucidez me lembro de que a vida é um sonho e que quando nos damos conta de que estamos sonhando conseguimos controlar esse sonho. Quero então acordar imediatamente desse sonho ruim. Mas como? A resposta que logo vem à cabeça é simples: morrer. Conscientemente refuto essa possibilidade, mas quem sabe? Não creio que seja possível viver assim. Mas agora é isto. O pior é conseguir explicar essa desertificação do mundo como um luto e ainda assim não conseguir mudar nada. Não há o que fazer. Permanecer nesta casa é uma tarefa sobre-humana. Acho que ainda não ficarei louco. É mais possível, provável até, um surto psicótico. Acumulei demais e uma hora isso cobra. E já logo aos 23.

Pode parecer ridículo a essa altura, mas minha criação religiosa pesou e uma noite dessas tive necessidade de rezar. Rezei em voz alta como nunca fiz talvez nem quando criança e encontrei um alívio momentâneo. Logo em seguida veio a ideia de escrever, por isso o início in medias res. Senti mais alívio. A literatura mais uma vez me salvando. Enquanto ela se debruça sobre outro, eu me debruço sobre o teclado. Enquanto ela monta, eu desmonto tudo que concebi. Suo enquanto escrevo, já ela troca fluidos de outra ordem – aliás, começou a fazer isso antes mesmo de nos separarmos formalmente. Foi direto, sem pontes.

Há alguns anos resolvi escrever o que me acontecia, mas em minha vida não acontecia nada, o que não foi um problema, pois a partir do momento em que resolvi escrever uma trama cheia de peripécias se desenrolou comigo. Escrever para esquecer. Às vezes releio esses escritos antigos e abro um sorriso. Ou então choro. Choro porque acho bonito, e sou desses que choram diante da beleza. Agora é isso, acho que escrever é uma boa forma de me distanciar e refletir, afinal Chaplin nos ensinou que o afastamento torna a vida uma comédia, ao passo que a aproximação traz um aspecto trágico. Mas apenas acho, já não afirmo nem tenho confiança em nada. Penso que seria uma boa focar no trabalho, mas que trabalho? Neste talvez.

Os dias têm sido ensolarados e gelados. Abro a porta e experimento o sol. O dia é colorido. Nada muda. Abandono o posto de trabalho e me sento ao sol. Se alguém me olhasse acharia que espero, mas ninguém me olha e não estou esperando por nada. Tampouco alguém me espera ou me esperou. Pelo contrário, desespero. Experimento música alta por não poder com o silêncio da minha cabeça. A casa está se degradando, apesar de meticulosamente ordenada. Cadê a desorganização de antes? Agora só dentro de mim. Ando nervoso, perco o controle dos meus movimentos e tenho constantes contrações involuntárias. Em resumo, às vezes começo a tremer e não consigo me controlar e parar. Tento focar na respiração e existir. Resistir.

Quando digo a alguém o que se deu recebo descrédito. Me perguntam “como?” Dizem que não podem imaginar isso. As pessoas desacreditam, e quando se convencem de que não brinco dizem convictas que tudo ainda retornará. Tinham certeza que nos dávamos bem, que tudo era ótimo e éramos leves tanto em fotos quanto em presença. Mas é que o que projetamos é outra coisa, não nós mesmos. Elas me têm como o sujeito mais equilibrado do mundo. E eu trabalho essa imagem, almejo o equilíbrio. Mas nunca fui isso, e agora estou ainda mais longe. Elas não entendem, eu tampouco. Acho que ninguém entende, se é que há algo de inteligível.

Agora nada mais me prende aqui. Está aí a liberdade tão aspirada. Por quanto tempo não desejei isso? E agora? Agora tenho de me virar. Eu intuía que não saberia o que fazer com ela, só não imaginava que seria tão difícil. Não tenho para onde ir. A vida se compõe de escolhas, e no meu caso errei por muito. Nietzsche fala que o sofrimento faz bem. Sempre achei essa ideia coerente e quero continuar acreditando nele. E faz todo sentido, mas não dá. Não consigo conjugar isto tudo. Já não posso oferecer qualquer coerência daqui em diante.

Obscuros somos sempre, mesmo sem pedi-lo.

Grande vitória que ninguém nos poderá arrebatar.

Herberto Helder

 

Habitava um quarto com menos de 6 m². Duas das quatro paredes, cuja cor variava de acordo com a altura, não eram de alvenaria, mas de eucatex. Era ora abafado ora arejado, dependendo da época. Tudo comprovava que aquele não era o projeto original, mas sim uma adaptação grosseira feita sem maiores preocupações quanto ao conforto ou estética. Era mínimo, ridículo, suficiente. Coisas que o exercício da profissão de fel proporciona.

Morava sozinho, claro. Seria impossível conceber mais alguém no quarto porque não havia espaço físico para tanto, ou mesmo porque ninguém se interessaria em adentrar aquela particularidade. De fato, não caberia mais ninguém no contexto. Habitava-o uma imagem que uma imaginação imaginava.

Refletia modos austeros. Não havia cama, pois deitava diretamente no chão. Tinha que ser assim, senão não aguentaria. Não havia guarda roupas, pois a roupa toda era a que cabia no corpo. Não havia cômodas, pois os acessórios eram dispensáveis pela nudez. Em suma, não necessitava móvel nenhum. Não havia janela, somente dois espelhos posicionados um em frente ao outro, capazes de proporcionar em alguma medida a dimensão do infinito. Mesmo assim seu espaço propiciava uma ampla vista, revelando-me uma vasta paisagem.

Não possuía nada além de mim, e quando não estava lá era impossível vislumbrar qualquer objeto tamanha a obscuridade instaurada. Habitava as entrelinhas de um fragmento, cavando um espaço entre palavras e me insinuando no inaudito.

A porta só tinha maçaneta para o lado de dentro. Quando aberta por fora, logo se escancarava ao giro da chave, e mesmo por dentro só se fechava novamente se fosse devidamente trancada, nunca encostada. Não admitia brechas. A porta batia com um ar de interrogação próprio a quem principia seu discurso com uma pergunta retórica, indicativo equivalente a uma introdução.

O chão era limpo pois os sapatos ficavam sempre na porta. Aliás, não me preocupava com limpeza, pois buscava antes não levar sujeira para dentro. Ao cruzar o limiar da porta sentia como quem acabava de ser ultrapassado por um portal. Entrava e ajeitava. Dessa posição apreciava povoadas solidões, imergia em atribuladas meditações e sonhava que estava exatamente onde estava.

Era nesse lugar que alcançava total liberdade. Mas para desfrutar da plenitude de tal libertação tinha que necessariamente permanecer ali. Isso não era lá problema, pois a liberdade transcende facilmente qualquer refúgio imposto, apesar de nem sempre dar conta de paradoxos irreconciliáveis; isto é, liberdade.

O quarto não era um fim em si mesmo. Não se fechava para que o pensamento se fechasse com ele, mas instrumentalizava para uma reflexão independente. Era um convite expansivo para o que está fora da casa. O que se inscrevia nesta expansão tornava-se mesmo constituinte do quarto. Suas paredes translúcidas se abriam para muito além de seu espaço, abarcando o imponderável. À margem, dava margem todo o tempo para que não houvesse preocupação quanto ao tempo. Anacronicamente, o chão se aprofundava e era possível flutuar, mas o desvelamento logo revelava que não havia fundo.

Diante da mudez, quer dizer, queria dizer, percebi que falava sozinho.

não esquecer que preciso tratar da imaginação citando a primeira melhor ideia

acentuar a desimportância do assento e não perder o fio do que está sendo narrado

Só os que entram sabem o que é isso. Digo que entrava para conhecer o momento de entrar. Esta experiência, de vivenciar o quarto, era minha.

Só após sentir, sonhar ou pensar que vinha a necessidade de dizer amor, solidão, nostalgia, que podia ser qualquer coisa, é tudo uma questão de nome. Este quarto pode ser tomado literalmente e sua ambiguidade exaurida, porém ele não foi feito para dormir, razão de ser dos quartos em geral. Este quarto, em verdade, não tem utilidade como outros dormitórios costumam ter. Ele é autônomo, não serve a nada.

Muitos podem pensar que este quarto com sua estrutura em abismo nunca existiu, mas esta leitura os desmente: é deste quarto autêntico que escrevo este texto mais propício à releitura ao relento. E se você o está lendo agora é porque o quarto de fato se construiu e se expandiu para além dos 6 m². E se você não o estiver lendo agora então isto tudo é um sonho.

Cheguei a cogitar que este quarto fosse único até descobrir que no próprio prédio de incontáveis andares em que habitava havia inúmeros quartos semelhantes. Descobri que há até um na cobertura, mas lá nunca fui pois só é possível alcançá-la utilizando um elevador privativo cujo acesso é controlado.

A espera se prolongou como o tempo árido que anseia pela chuva. Ofélia estava ansiosa pela visita. Havia tempo que planejava essa mudança que, uma vez feita, não considerava passível de regresso. Seria enfim tempo de experimentar a emancipação da qual todos falavam e se gabavam ao estabelecer aí a inequívoca entrada à vida adulta autônoma.

Quando chegou o corretor – pontual, pois era ela quem estava adiantada –, Ofélia o reconheceu de longe pelo caminhar justo que embutia em si a cordialidade de quem busca agradar e a segurança de quem quer passar confiança. Ambos, claro, próprios aos ofícios, tudo para garantir o negócio. Cumprimentou-o com um austero aperto de mão e nesse momento se deu conta do estado em que se encontrava: a mão molhada revelava que suava frio. Manifestação física nada compreensível no clima ameno que fazia, senão vista por sua atribulada vida interior.

O homem trocou em particular algumas palavras com o porteiro antes de se encaminharem pelo hall, cujo espelho revelou uma Ofélia que Ofélia achou bizarra. Se precisasse apontar o que estranhou em si não saberia precisar.

Assim que tomaram o elevador o mal-estar se instaurou nela com mais potência que de costume. O homem, que aos olhos de Ofélia tinha a obrigação de deixá-la à vontade, limitou-se a analisar o botão dos andares. Durante a infindável viagem teve esperanças que melhoraria logo que saíssem do elevador. De fato, a ansiedade abrandou, e ao sair se viu capaz de afirmar as pernas e controlar os passos.

Não demorou para que o homem se pusesse a falar pelo corredor afora, explicando que eram seis apartamentos de mesmas proporções em cada andar, com exceção do dela que, por ser de frente, tinha uma sacada a mais que os outros. Ofélia pensou que, entre os seis, seu apartamento tinha que ser justamente o desproporcional.

Logo ao ouvir a chave retirada do bolso e penetrando a fechadura, não pôde evitar grande perturbação pelo som metálico que ecoou profundamente pelas escadas, como se fosse o único sinal de vida em toda aquela verticalidade, contrastando com o homem que utilizava uma voz macia que já tratava das vantagens de se morar daquele bairro.

Quando a porta se abriu e o corretor cavalheirescamente cedeu passagem a Ofélia, calou-se o mundo às suas costas e tudo que surgiu à sua frente foi uma ampla janela tremendamente iluminada, desnudando o vazio do apartamento. Vacilou antes de entrar mas, dando-se conta de que o homem não quebraria o silêncio e, consequentemente, não adentraria o imóvel antes dela, tomou por bem cumprir a expectativa. A já referenciada janela era inevitavelmente o ponto que concentrava a atenção, por isso focou nela seus esforços para extrair algum comentário. Por fim, falou sobre sua vastidão, ao que o homem, satisfeito, aludiu à vista que proporcionava, referindo-se como um trunfo que a todos causava impressão positiva.

No silêncio restabelecido, Ofélia não pôde deixar de pensar nas tardes em que, desassossegada por incontornáveis pensamentos que lhe eram próprios e de todos, de sua poltrona observaria com vagar a vaga intempérie a projetar pingos de água que escorreriam uns sobre os outros pelo vidro. Visivelmente constrangido com o silêncio, o homem disparou a falar sobre as possibilidades de disposição dos móveis, ao que ela apenas assentiu maquinalmente. Sentindo que era hora, o corretor a convidou a conhecer outro cômodo.

No espaço da cozinha o que dava a tônica não era o vazio, pois já havia um armário embutido, bem como a pia com o recorte adequado para um fogão. Enquanto o homem elencava as possibilidades oferecidas, como que a tentar desviar o foco para a menor incidência de luz, Ofélia pensava melancolicamente sobre a louça que haveria de lavar e os chás que provaria ali, tentando insistentemente associar os sabores experimentados a outras sensações, sinestesia perseguida e nunca alcançada.

Era isso que ocorria a Ofélia quando passaram à área de serviço, e a visão possibilitada dos outros apartamentos logo atraiu sua atenção. Viu roupas que secavam ao vento, de toda sorte de gosto, e pelas vestimentas tentou imaginar que tipo de pessoas moravam ali. Depois dessa especulação, pelas roupas que trajava, tentou inferir que tipo de pessoa ela própria era. Não avançou em nenhuma das tentativas, mas entreteve-se a ponto de não dar qualquer atenção ao diligente profissional que, na medida em que era ignorado, cada vez mais se excitava e gesticulava exacerbadamente. Ofélia por fim mal articulou uma resposta, restringindo-se a menear a cabeça, o que não bastou para o profissionalismo do experiente corretor identificar se estava utilizando a abordagem adequada e se seu discurso soava estéril ou não.

Voltaram, cruzando novamente a cozinha e a sala, antes de avançarem pelo corredor e alcançarem o banheiro. Chegaram mas não puderam entrar, pois o modesto espaço, diferentemente da abundância dos outros ambientes, não suportava os dois confortavelmente. Ofélia sentiu vivo receio de ter que lá entrar, pois era ao lado da cozinha e a iluminação ainda menos favorecida, mas vendo que era justamente o que o corretor esperava, preferiu não frustrá-lo e o fez mais para que as coisas se encaminhassem rapidamente que por interesse em conhecer. Ao cruzar o limiar da porta Ofélia foi outra vez tomada pelo mal estar, e não foi capaz de dissimular seu abatimento tendo o homem tão próximo de si. Este, vendo a cliente esmorecer, perguntou-lhe temeroso o que se passava, o que ela estava sentindo. Ela se concentrou o suficiente para dizer que não sentia nada, que aquilo era normal, que só precisava de um copo d’água para se reequilibrar. Imediatamente ele foi até o vizinho de porta pedir um copo, e tão logo ela se viu sozinha sentou-se no vaso – não para fazer necessidades, mas por ter a necessidade de se sentar naquele instante.

O homem demorou e, perante sua ausência, imaginou os banhos que deveria tomar ali. Ao imaginar a água escorrendo por seu cabelo encharcado, sentiu vontade de se aliviar. Encostou a porta silenciosamente, tanto rápida quanto sorrateira subiu a saia, abaixou a calcinha e tirou o absorvente tingido de rubro. Pensou identificar um cheiro forte se espalhando pelo ambiente. Algumas poucas gotinhas de sangue escorreram então. Feito isso, reposicionou o acessório alvirrubro no devido lugar e se ajeitou. Instantaneamente pensou estar melhor. Quis na mesma velocidade dos sucessos dar descarga e se livrar de seu ato, mas qual não foi sua surpresa ao acionar o mecanismo e não receber qualquer resposta. Por certo a água do apartamento estava desligada ou cortada. Olhou para baixo e viu o vermelho tão vivo e denso reunido a se diluir no líquido.

Ao mesmo tempo ouviu passos que, após uma aproximação, rumara à cozinha, e buscou se acalmar pois já sabia o que se passaria. Logo na sequência o homem entrou e, sem graça, avisou que pegara o copo vazio da vizinha, planejando servir a Ofélia a água de seu próprio apartamento para que ela provasse o que seria seu, mas que infelizmente não havia água. Fez essa exposição apressadamente, pois tencionava voltar à vizinha para pedir também a água, no entanto Ofélia o deteve dizendo que já estava recuperada e que aquilo só era consequência de ter se levantado muito cedo. Ademais, só faltava um cômodo mesmo para ver, então poderiam dar a visita por encerrada. Vendo a mulher falando desse modo, fluido como ainda não ouvira de sua boca, o corretor se tranquilizou. Por educação, insistiu sem vontade em encher o copo, pois não tinha pressa, tampouco preocupação. Ofélia dispensou o cuidado se reerguendo e dizendo que estava pronta para o quarto.

Apesar do que tentava aparentar, Ofélia estava exausta em seu desejo. Saiu do banheiro e pegou a esquerda para conhecer o quarto, e antes mesmo de avistá-lo já se deu conta de que interiormente não estava nada pronta. Ao caminhar por seu espaço generoso, com um imponente roupeiro embutido e boa iluminação, pois a janela dava para o mesmo lado da que ficava na sala e tinha a luz batendo de frente naquele horário, concebeu um híbrido entre a iluminação da sala e o preenchimento da cozinha. E imaginou com mais detalhes que antes o que se passaria, seu corpo molhado suando por um amor feito sem querer, flutuando inutilmente de um lado para o outro como as roupas na área de serviço, impossibilitadas de voar presas ao varal como estavam, destinadas apenas a secar com a brisa da tarde, assim como suas longas insônias igualmente secariam suas lágrimas noite adentro.

Disse sem pensar qualquer coisa para o homem, cujos olhos recendiam a esperança, o que significava que ambos haviam executado muito bem os seus respectivos papéis. O corretor ainda principiou a tratar da liquidez do investimento, da ótima relação custo-benefício proporcionado pelo aluguel do imóvel, porém tão logo sentiu uma brecha ela afirmou estar decidida, garantindo que voltaria a entrar em contato com ele. Ofélia acelerou então pelo corredor, espaço de passagem por excelência, perfeito para aquela fuga, e ao saírem o barulho da chave encontrando outra vez a fechadura, dessa vez para encerrar uma possibilidade e a oferecer o exterior, animou-a para seguir.

Subitamente, o homem bateu na porta da vizinha a fim de devolver o copo, explicando que era ensejo propício para já travar conhecimento e alimentar boas relações. Ofélia pensou em chamar o elevador, mas vendo que não haveria tempo hábil, precipitou-se pela escada mesmo. Até ali, mantivera a postura interessada e forjara magistralmente sua imagem ao corretor, mas não podia mais sustentar o fingimento. Sabia que seu movimento era definitivo, e decidiu que não precisaria mais de nenhum corretor. Àquela altura já estava liquidada, e não queria mais nada senão voltar ao seio materno.

Acordei me sentindo mais estranho que o normal. Estava mais tenso do que quando não era nem criança nem adulto e mais vazio do que quando não criava. Será talvez por que ultimamente não escrevi nada, somente reescrevi?

O que planejamos para somente uma noite deu errado e o pacto de sangue ou de alma ou de esperma que fizemos tomou outras proporções. Eu estava doente, ela condolente. Você me incomodou, mas sua ausência incomodou igualmente. Acordei mais uma vez desejando ser vítima do inevitável eterno retorno.

Fui te procurar na Saúde e na doença e no Piqueri e no Mandaqui e no Campo Belo e no centro velho e no Campo Limpo e nos Jardins da selva de pedra – epíteto desnecessário pois já está claro o local ao qual me refiro – e na Liberdade e no Carandiru e no Paraíso e no metrô em horário de pico e na Consolação e na Zona Leste e nas da Augusta e nas imediações do Jóquei e na Catedral da Sé e na puta que te pariu e na casa do caralho e na Casa das Rosas. Definitivamente, a estética da letra minúscula não é para mim.

Essa perturbação se torna obsessão rapidamente. Todos os perturbados estão e estiveram em busca. Os que tentaram solitariamente em geral foram esquecidos, talvez porque alcançaram seu objetivo e não necessitem de lembrança. Em outra época foi possível chegar lá, mas a verdade é que faltavam guias, portanto só restava a solidão para forjar o caminho. Hoje, os guias se encontram aos montes, mas o local já se tornou inalcançável, e os que insistem acabam inevitavelmente sendo tomados por loucos.

A memória implacável ataca os humores, renovando os equívocos de um instante contínuo. É assim: enquanto estamos diante das coisas não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos apenas o que fizemos, muitas vezes sem a dimensão do potencial de alcance desses atos. Ver as coisas, possuí-las e ser apanhado por elas.

O que vem aí? Algo que se vai… Não gosto de expectativas. Tento não alimentá-las em mim. Em meu trabalho, não viso quebrar as expectativas, mas deixá-las em suspenso. Não há síntese e, se houver, é irônica, provocativa. Há devir. Se eu fizesse um filme pornô ele antes faria brochar. Seria ainda um pornô? Não sei. Se não, seria ainda filme. Ou nem isso também, não sei.

Todos vivemos nossas tragédias kafkianas particulares. Há que se recomeçar reconhecendo isso. Se penso em um peixe posso visualizá-lo: ele é vermelho, pequeno e célere, apesar de um pouco rechonchudo. Sou capaz de descrever melhor o peixe o imaginando que se o estivesse de fato vendo. Ao mesmo tempo em que concebo sua imagem, sei também o quão o alcance de sua memória é limitado.

Meus infortúnios se devem especialmente ao fato de eu não ser peixe. Sequer sei nadar, mas tenho memória. Não invento, só não esqueço. Projetei algo para a vida e, uma vez impossível de estendê-lo vida afora, esse algo permeia minha existência em lembrança e sonho, o que no final dá no mesmo.

E sem o instante de inspiração, sobra um tanto de piração. Por vezes encontro alguém que não vejo há tempos e esse alguém logo me pergunta “e então, continua escrevendo?”, o que comprova três coisas: que essa pessoa me reconhece como escritor – o que deveria ser a parte boa –, que ela não me acompanha – o que é indiferente – e que ela está convicta de que ora ou outra eu assumirei o fracasso e desistirei disto. Mas ainda persisto. Afinal, o que mais eu poderia estar fazendo? Se depender do gerundismo da frase anterior, poderia estar trabalhando com telemarketing, o que não é muito melhor do que fazer o que faço.

Eu, na verdade, queria trabalhar para nada, na verdade, queria ser mudo, na verdade, queria órgãos artificiais, na verdade, queria um acerto justo, na verdade, queria uma vida sem arrebatamentos, na verdade, queria não ter passado, na verdade, queria ser monóxido de carbono, na verdade, não sei o que queria, na verdade. Eu, na verdade, minto descaradamente.

Não posso simplesmente disfarçar, colocando a mão nos bolsos, assoviando para o alto e transparecendo desinteresse, pois não sei assoviar. Na verdade, nunca soube. Sempre que tento sai um sopro quase mudo, impotente, que não vai longe e não lembra em nada as harmônicas melodias que nos põem alegres ou melancólicos ao primeiro reconhecimento. De fato, constato minha inaptidão para essa rica possibilidade musical de ordenar o caos de seguidos agoras. Até o vento assovia, mas o meu não se propaga, talvez pelo vácuo em que vivo. Meu assovio mais se assemelhar a um chiado intermitente que visa prevenir sobre algo que não está bem. Não invejo os que são dotados dessa incrível capacidade, antes silencio para apreciar melhor a incrível capacidade de levar sensações pelos quatro ventos. Mas caso alguém se disponha a observar quase ao acaso minha expressão poderá reconhecer a tentativa e supor de meu ato um assovio. E confesso que esse reconhecimento seria mais bonito que o reconhecimento da beleza do próprio assovio em si.

Quanto à busca, se encontrei o que procurava? Nem me lembro, na verdade, o que posso dizer é que a vontade passou e fui dormir.

- Digam a primeira citação que lhes vêm à mente.

- “Conhece-te a ti mesmo”

- “Eu é um outro”

 

- Com que frequência os senhores escrevem?

- Sou sistemático, escrevo todas as noites.

- Sou desregrado. Estou o tempo todo pensando em escrever, mas mais penso que escrevo.

 

- Qual a principal matéria da escrita de vocês?

- Escrevo sobre o Homem – responde um escritor.

- Escrevo sobre um homem, o Outro – responde o escritor.

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