Flanava lentamente pela Paulista perdida, solitária na multidão, quando viu emergir na pauliceia um pedido. “Umas moedas para um prato de comida, por favor”. Balançar a cabeça baixa negativamente pareceu suficiente. Foi então que a mão esquerda, usando de uma força considerável, tomou seu braço e repetiu o clamor entrecortado. “Umas moedas”.

Ergueu a cabeça num sobressalto e se livrou da mão com um sentimento de ofensa. Sentia arder em si a injustiça dos inocentes que têm a consciência atormentada ou a repulsa dos que têm a privacidade violentada. Foi o suficiente. Seu íntimo fora invadido por tal afronta.

Caminhou cambaleante apressada e quando olhou para trás viu o pedinte de costas. Ele seguia virado para o mesmo lado de antes, abordando os que vinham da direção que ela viera. Até então não sentira frio pois ia a favor do vento, mas ao se virar e ficar contra foi tomada por um arrepio severo. O vento soprava forte e aumentava a sensação de frio, mas ela gostava. Não ligava se a fome doía mais no frio.

Resolveu apreciar a brisa. Parou e ficou a observar a ação do pedinte. Não demorou para encontrar prazer no espetáculo. Ninguém lhe dava nada. Era desastrado para pedir, não sabia se fazer muito bem de coitado, não tinha nascido para ser vítima. As pessoas nem se davam ao trabalho que ela se dera, de balançar a cabeça, mesmo que negativamente, para ao menos demonstrar humanidade; e nem por isso ele as agarrava pelo braço. Parecia-lhe um ato humano demonstrar que ouvia. Considerou-se muito humana. Pensou que talvez por isso ele se sentira na liberdade de tocá-la, afinal é aceitável tocar a carne; enquanto aqueles que não saiam de sua gravidade pareciam vetustas estátuas de mármore cuja frieza não apetece o toque.

Seguiu observando o curvado pedinte, com as costas magras por sob a camisa escura arqueadas para frente. Na certa tal postura amenizava a dor da fome. Não demorou muito tempo para notar uma mudança de tom. O pedido passava então à súplica. E à medida que o desespero aumentava crescia também sua satisfação com a performance. “Pelo amor de Deus, um prato de comida”. Todos seguiam se desvencilhando. “Estou com fome”. A multidão sempre se desvencilhava.

Ele repetia e repetia sua súplica, já quase sem mirar ninguém, como que a concentrar seu último pedido aos céus. Como ainda estava em pé, quando olhava para cima só havia céu. Também havia os prédios, mas estes não atendem pedidos. “Pelo amor de Deus, eu tô com fome”. O choro já a ponto de tomá-lo.

“Deus não existe”, ela repetia para si, recostando-se no concreto em que se apoiava. Ele insistia. “Pelo amor de Deus, umas moedas”. “Deus não existe, Deus não existe”, ela repetia com o ardor de uma torcedora cujo time está vencendo e tudo que deseja é o fim do jogo exatamente daquele modo. “Eu tenho fome”. A voz falhando. “Não me toque. Não me toque”. Remorso. “Pelo amor de Deus”. Quase não há mais força para o pedido.

Quando ela já está como o público que se ajeita para levantar e pedir bis, o homem subitamente abaixa os olhos e se vira para uma moça em especial. Ela vem vagarosa e sem vontade, como que empurrada pelo vento. O homem parece se ajeitar e reencontrar sua dignidade, como se aquele fosse algum encontro solene. Ele então a encontra. “Umas moedas para um prato de comida, por favor”. A moça, surpreendida em sua solidão, parece fitá-lo. Ele agarra seu braço repentinamente e repete o pedido. “Umas moedas, pelo amor de Deus”. Ela se afasta.

Ele então caiu como se aquele houvesse sido seu último gesto. Um esforço sobre-humano fora necessário para tal ação. Um dispêndio de energia que ele não poderia repetir. Retirou-se cambaleante até a parede do prédio e se apoio para escorregar e não ter uma queda muito dura na calçada rígida. Quando pousou no chão, fechou os olhos.

Sente um cutucão no ombro esquerdo e abre os olhos assustados. Vê então a imagem de uma mulher. Ela está segurando algo com a mão direita que ele não identifica, mas que cheira muito bem. A água sobe a boca. Ela estica o embrulho em sua direção, como uma oferenda, mas ele, incrédulo, espera um instante antes de aceitar. A imagem da moça é borrada, mas as luzes o permitem distinguir um sorriso contido. O presente é passado. “Obrigado senhora, que Deus te abençoe!”

Ela então se virou para partir a favor do vento.

Um autor muito bem quisto pelo meio artístico, sempre resenhado e contemplado com críticas positivas, sentia seu orgulho afrontado quando seguidamente notava a ausência de seu nome na coluna da revista de maior prestígio. Curiosamente, o responsável por tal coluna era um de seus grandes amigos. Conhecidos desde os tempos de faculdade, aquele era talvez o único que realmente nutria algum tipo de carinho pessoal por ele.

Mesmo com o lançamento de seu trabalho mais recente, amplamente difundido e muito bem criticado nos meios mais notáveis, nada aconteceu: nenhuma citaçãozinha na coluna. Não resistindo mais, deixou sua típica discrição de lado e resolveu conversar abertamente sobre o porquê de seu constante esquecimento com aquele amigo de que tanto gostava – e que muito possivelmente era o único que de fato gostava dele naquele meio.

- Gosto muito de você – respondeu o amigo -, e exatamente por isso espero você fazer algo de maior relevância para criticá-lo. Tento sempre apontar para o que me parece bom, e não apenas fazer massagem ou então agredir, como age a maioria dos críticos.

Diante disso, o autor se revoltou e rompeu relações com o amigo crítico. Nunca lhe ocorreu fazer nada de maior relevância.

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